Falam que hoje existe um bilhão de seres humanos sem acesso à água potável. Número que poderia subir para três bilhões, caso nada de mais contundente seja feito desde já. Esses números não trazem uma dose exagerada de catastrofismo?
Esses números são projeções para o final do século e levam em conta a disponibilidade de água doce do planeta (que é estável, sendo a reposição feita através das chuvas), os efeitos do aquecimento global e do crescimento demográfico, que acontece em muito maior proporção nas regiões pobres e, ainda, estatísticas que comprovam que a falta de água, as doenças provocadas pelo uso de água de má qualidade e a falta de saneamento são as principais causas de mortes no mundo. Temos a considerar, com relação ao aquecimento global e que pode muito bem ser estendido à falta de água, o que foi dito por Nicholas Stern: "Somos a primeira geração com o poder de destruir o planeta. Ignorar tal risco pode ser descrito como uma temeridade". Na mesma linha, o fórum realizado em Istambul projetou que "a humanidade não tem consciência do perigo a que está submetida e vai agir somente em situações limites", dando o aviso de que "esses limites se aproximam". Pode-se dizer que, em muitos lugares do mundo, inclusive em regiões do Brasil, esses limites foram atingidos há bastante tempo, e as soluções foram precárias ou inexistentes, razão de ser este mais um problema a ser tratado prioritariamente em nível internacional, para evitar o pior.
Como o Brasil é visto no mundo, na questão dos recursos hídricos? Quais as vantagens e desvantagens dessa condição, sabendo-se que a água pode e deve ser o motivo de uma série de sérios conflitos num futuro não muito distante?
O que chama a atenção, com relação ao Brasil, é alta disponibilidade de água da bacia Amazônica. Além disso, aqui não existem, ainda, tensões internacionais relacionadas à água, como ocorre em outras regiões, onde um rio atravessa um ou mais países. Quanto ao resto, é muito difícil prever ou mensurar o que pode acontecer no futuro, decorrente da má distribuição de água doce no planeta.
O comércio da água já movimenta 100 bilhões de dólares no mundo. O Brasil é o quarto no segmento. Será que as empresas que lucram com esse mercado estão dispostas a abrir mão dessa condição privilegiada?
Pela Lei das Águas, aprovada em 1997 pelo Congresso brasileiro, a água é um bem público com valor econômico. Somos um país de muitos aqüíferos e rios mas que, como acontece no resto do mundo, não exerce muito bem as políticas de conservação, mesmo tendo leis para fazê-lo.
Pela legislação brasileira, empresas particulares podem ser coadjuvantes no processo de manutenção e defesa deste bem público, na forma de concessionárias, mantida intocável a soberania do Estado sobre o uso das águas e o seu poder fiscalizador sobre as empresas.
O que está sendo discutido, em termos mundiais, é a criação de uma autoridade mundial das águas, coordenada pela ONU, que cuidaria da parte normativa e judicial que envolva conflitos entre países e, o mais importante, crie condições para que a população mundial tenha acesso permanente à água potável. Será um processo de maturação lenta, que os mais otimistas estimam de 10 a 15 anos.